– Eu era pequena, não sabia o que era aquilo. Peguei ele, coloquei num saco e levei até a Vila.
Faz mais de 40 anos que isso aconteceu. Suraia, uma mulher aparentemente comum, conta como sua vida mudou desde que escolheu viver pelos animais. Na casa, dois cães enormes guardavam a entrada. Ambos da raça “Old English Sheepdog”. Eles são os únicos cães de Suraia, os outros 45 estão lá apenas de passagem. Foram quase cinco minutos para conseguir cruzar o portão e chegar até a sala. Não era distante, mas a dificuldade de se conseguir entrar sem deixar nenhum cachorro fugir tomou mais tempo que se supunha.
A casa de madeira simples parecia mais um grande osso para cães, tamanha a quantidade de lascas no assoalho, nas portas, na parede. Marcas que os mais de 300 cachorros que passaram por lá deixaram de lembrança. A trilha sonora daquele lugar se dividia em latidos agudos de cães que não ultrapassavam 20 cm e de tons graves, causados pelos cães maiores. A cor do sofá se escondia atrás do pano desbotado que o protegia. Por toda a casa o cheiro forte de urina dos cães neutralizava o olfato. Logo, aquele cheiro se tornou comum.
– As pessoas descobrem onde a “gente” mora e começam a deixar animais aqui. Uma vez deixaram um casal com cinco filhotinhos. O casal estava envenenado. Consegui salvar só os pequeninos.
O rosto de expressões marcadas e pele cansada contrastam com seus olhos azuis joviais. Suraia Sehn Pereira tem 49 anos, vive em Itajaí. Sempre foi apaixonada por animais, mas há dois anos e meio se dedica inteiramente a eles. Para dar conta dos gastos com tantos animais, ela trabalha todas as noites fazendo artesanato, além das poucas doações de conhecidos que recebe. Pela manhã, cuida de suas netas e visita seus dois filhos. À tarde, não desgruda dos cães. Suraia sente prazer em viver em função de ajudar os animais e, talvez por isso, ela dá abrigo a todos os cães que encontra abandonados nas ruas.
– A Vitória está aqui há cinco meses. Já está bem melhor do que quando entrou. Sabe que raça ela é? Uma Yorkshire.
A cadelinha tinha raros tufos de pêlo no corpo. Por toda sua pele, feridas enormes cicatrizavam. Apesar de toda a dor que já passou, não para de balançar o rabinho. Uma forma de agradecer sua “dona” por todo o tratamento que vem ganhando. Suraia lembra o nome de cada cachorro que cuida e todos eles atendem pelo nome que ela escolheu. Enquanto Suraia relembra as histórias de seus “amigos” e pensa nos cachorros abandonados, sofrendo nas ruas, a protetora dos animais deixa escapar uma lágrima singela. Olhos úmidos e pensamento distante. Ela sabe que muitos cães que trata em casa estão velhos, doentes e que provavelmente ninguém irá adotá-los. Porém, se mostra esperançosa quando diz que lá é apenas um abrigo provisório.
– Na enchente ficou com um metro e oitenta aqui. Eu tirei 13 cães de bateira e os outros coloquei em cima dos guarda roupas. Eles ficaram cinco dias alí, quietinhos. Fiquei desesperada! Eu perdia tudo, mas não queria perdê-los.
Dedicação em tempo integral
De duas em duas horas ela repetia o mesmo trajeto. Caminhava até o carro estacionado em frente ao trabalho e os amamentava com a pequena mamadeira. Cinco filhotes de cachorro numa velha caixa de papelão. Clarissa é envolvida com animais desde criança, há cerca de cinco anos conheceu o trabalho da ONG Viva Bicho, de Balneário Camboriú e se identificou com o projeto. Dividia-se entre o trabalho voluntário no abrigo de animais e a carreira como projetista de imóveis. Como voluntária verificava denúncias de maus tratos, resgatava animais das ruas, participava de feiras de adoção. Como projetista de imóveis, pensava nos animais. Há um ano deixou o trabalho e se tornou presidente da Viva Bicho.
A ONG que surgiu em 2003 recolhe em média 50 animais por mês em estado crítico. Atropelados, doentes, recém nascidos, idosos abandonados, vítimas de maus tratos graves, etc. Em torno de 15 a 20 desses animais acabam falecendo. Hoje o local abriga mais de 600 animais. A Organização recebe uma ajuda mensal da Prefeitura, mas o valor não chega nem à metade do que é gasto. O restante é arrecadado em eventos promovidos pela Viva Bicho e através de doações da comunidade.
Quem vê a bela jovem de longos cabelos negros e sorriso sincero não imagina que seja tão diferente da maioria das pessoas de sua idade. Fim de semana, enquanto todos estão na praia, no shopping, Clarissa Knabben, 33 anos, passa o dia correndo atrás de animais abandonados por tudo que é canto da cidade. Todo dia, o tempo todo ela vive assim, deixa até a própria vida de lado por eles. O pouco tempo em que fica em casa, ela passa com o noivo e “patrocinador” de seu sonho e com seus cinco cachorros e um gato que adotou das ruas. Quase todos possuem alguma deficiência. Entre eles, Pedrita. A cadela ficou paralítica após um atropelamento. A imobilidade a obrigava a se arrastar pelo chão, assim ficou com grandes feridas em toda parte traseira do corpo. Não tinha jeito, precisava sacrificar. Clarissa não teve coragem. Levou a cadela pra casa e cuidou dela. Foram seis meses para a total recuperação e hoje a cadelinha paralítica é a mais ativa da casa. Corre, brinca, sobe e desce escada com a ajuda de uma cadeira de rodas cor-de-rosa feita sob medida.
Amor Hereditário
Na fotografia, uma gata da raça siamês, de pêlos bem cuidados, descansa serena sobre uma almofada redonda. Há alguns anos ela foi encontrada rodeada de filhotes amarrada à uma árvore, num dia de temporal. Uma senhora de estatura mediana e cabelos curtos a recolheu, cuidou dela e lhe conseguiu um lar. Esse foi apenas um entre muitos outros animais que Ione Brautigam já recolheu da rua ao longo de seus 53 anos. A dedicação aos animais ela herdou do avô que sempre recolhia cães e gatos abandonados que encontrava. A funcionária pública já chegou a abrigar 44 cachorros e mais de 20 gatos.
Hoje, mais contida e realista, ela sabe que não é possível ajudar a todos. Independente disso, ela continua fazendo o que pode. Leva ao veterinário, doa ração, cuida temporariamente dos que necessitam. A conversa é interrompida por um miado. Shadow, uma gatinha malhada de dez anos. É um dos oito gatos que moram com Ione. No jardim florido e repleto de verde da grande casa eles dividem espaço com mais sete cães. Todos castrados. Um dos maiores problemas consequentes em relação aos cachorros abandonados é a falta de castração. Segundo dados da Sociedade Mundial de Proteção Animal, WSPA, dos cerca de 500 milhões de cachorros do mundo, em torno de 75% estão na rua. Geralmente estão com tumores, infecções dermatológicas e feridas. Desse número, mais de 70% dos filhotes morrem com raiva e cinomose. A grande maioria foi abandonada pelos seus donos. Eles se reproduzem sem controle e geram mais filhotes indesejados.
– Eu era pequena, não sabia o que era aquilo. Peguei ele, coloquei num saco e levei até a vila que era longe. Era um cachorro com sarna. Eu ajudei o veterinário a dar banho, dar remédio, a curar ele.
Suraia nem fazia ideia de que décadas mais tarde sua vida seria cuidar de todo e qualquer cão que visse abandonado na rua. Clarissa, quando viu um cachorro ser atropelado e pediu ajuda a Viva Bicho, não imaginava que hoje seria a presidente da ONG e Ione ainda faz o que seu avô lhe ensinou: cuidar dos animais da melhor forma que pode. Diferentes, mas iguais em uma questão: Se questionadas sobre qual mensagem deixariam, apesar das diferentes palavras, a resposta é a mesma: Cuidem de seus animais, castrem para evitar reprodução desenfreada e tenham consciência que aquele que destrói seus chinelos e te acorda com latidos na madrugada é mais um integrante da família e não um ser descartável.

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Linda a matéria e a história de Suraia…
E é legal sabermos que existem muitas pessoas assim no mundo, embora existam tantas outras que não pensam e façam maldades com os animais.
Beijos
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